sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O preço que se paga às vezes é alto demais

Não há nenhuma prece aqui, as pessoas falam suas metáforas, mas mentir não adianta de nada. Você costuma levar o mundo ao topo, mas agora o mundo não é um lugar tão alto assim. E procurar uma forma de não escorregar faz de você mais uma mera mortal, onde está sua confiança de outrora? A realidade não é tão formidável assim e levar o mundo ao topo não lhe interessa mais. Você faz um acordo com o diabo, sua alma em troca de alguns segundos de alegria, mas seu mundo está desmoronando aos poucos e não há ninguém para puxar suas mãos e seus braços e lhe levar ao topo novamente. São apenas você e suas vagas idéias sobre a felicidade, infelizmente nada se encontra no caminho que lhe contaram. Você tem que cavar com suas próprias mãos e encontrar um novo lugar para depositar suas esperanças. Nesse momento o mundo todo reza por você, mas não há nada que se possa fazer: suas metáforas não lhe levam a lugar algum. Sua linguagem descolada e seus sorrisos emprestados, esse brilho nos olhos não engana mais ninguém. Suas poesias não têm mais graça e ninguém rir mais de suas piadas, por isso encoste a cabeça no seu muro das lamentações e esqueça sobre o acordo com o diabo, nenhum inferno é pior do que aqui.

Encontrar alguma razão para continuar com a viagem e evitar cair no próximo abismo. O que pode lhe salvar agora? Sua mente não continua a viajar como costumava fazer, essa sobriedade é mais barata do que cortar os próprios pulsos. Não arranque sua alma em troca de alguns centavos. Nenhum baseado vai acender para você, pois sua mente não lhe leva a lugar algum. ”Permaneça confiante” - é o que lhe dizem, contudo você desistiu de gastar seu precioso tempo com confianças que serão arrancadas. O diabo fez um acordo com você – “permaneça acordado e vá para o paraíso”, mas manter os olhos abertos é mais difícil do que lhe falaram. Toda essa conversa não adianta nada e os livros de auto-ajuda poderiam ser queimados, ninguém entende o que é permanecer no mesmo abismo. Seu corpo cai sem nunca encontrar um ponto onde descansar em paz. Mas você mantém sua confiança inabalável, onde há mais solidão do que entre as quatro paredes do seu quarto? Afogar o seu travesseiro em lágrimas não trás nada de volta. De volta ao começo, o mesmo frio no estômago. Rezar não adianta de nada agora.

Por isso venda sua alma ao diabo e tente saber como nunca conhecer o preço. Há segredos que valem a pena nunca descobrir.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Silêncio, soul e fumaça.

Há coisas que precisam silenciar. Coisas as quais sentem a necessidade de serem guardadas, com sete chaves, em um segredo quase absoluto. Em cavernas, silenciosas como as almas. Cortando o tumulto com a calma e, como um grito que rompe o silêncio, é a tranquilidade que interrompe a tempestade.

Faz tempo, mas minha voz ainda chega ao tom mais baixo. Faz tempo, mas ainda há certo medo de voltar sozinha para casa. Talvez nem faça tanto tempo assim. Seja só meu corpo e minha mente, enrugados, envelhecidos. Como se tivessem passado muito tempo submergidos, como os dedos ficam depois de um longo banho. Talvez seja apenas meu corpo me pedindo calma; talvez seja minha mente garantindo-me – há coisas demais guardadas.

Escutar Nina Simone enquanto se traga essa realidade, essa descoberta, de certa forma, apaziguadora, trás uma sensação de fatalismo. Você não pode evitar seu passado, ele continua lhe encarando por trás da janela embaçada. Meu silêncio ninguém quebra. Minha calma. Ela mói meu corpo doente e aos poucos me trás de volta, em um circulo vicioso que não me causa náusea.

Nesse momento o tédio me atrai; os dias cinza, cobertos pelo cheiro de gasolina queimada e cigarro; criando-me fantasias de amor e ódio, de certo e errado, certezas falhas, gastas, contudo, debilmente necessárias. Pretendo mesmo me recolher ao silêncio. Ele agora é quem fala mais alto. Prefiro mesmo o quarto escuro, o som baixo e uma fumaça azul saindo dos meus pulmões. Necessito ouvir o meu pulso, sentir o meu coração pulando no peito, enquanto leio um livro estúpido.

Agora Nina Simone me dedilha o corpo, transpira minha alma e suaviza minha respiração. Ter calma é fácil, dar-se bem com a solidão. Só há você no quarto – o reflexo no espelho, as pessoas nos seus carros, tudo isso faz parte de outra dimensão.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Panis Et Circenses

Sonhei com uma bomba relógio no porão,
O som da televisão foi o que me acordou.
Olhei para os lados e não vi relógio algum,
Meu despertador não me informou que horas são.

Em pouco tempo o céu vai clarear
E eu dormindo na sala de estar.

O filme passa como se analiasse a mim,
Nicole Kidman não me interpreta muito bem.
Não me vejo com as pedras no fim,
Eu iria para Londres naquele trem.

Em pouco tempo o céu vai clarear
E eu dormindo na sala de estar.

Vou descer até aquele maldito vagão.
Olhar as árvores sem me despedir.
Devo ir antes que exploda de decepção,
A minha vida não pode caber em um gibi.

Em pouco tempo o céu vai clarear
E eu dormindo na sala de estar.

Vou me levantar e abrir a porta da frente,
A sala de estar não é para mim o suficiente.
Eu vou dormir na calçada aqui da rua,
Talvez de noite o que me acorde seja a lua.

Em pouco tempo o céu vai clarear
E eu saí da sala de estar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um amor pra recordar

Não se esquece de mim - essas foram as nossas palavras. Nós não dizíamos ‘eu te amo’ ou ‘não vivo sem você’. Nós dizíamos “Não se esquece de mim”, o resto ficava implícito nas entrelinhas dessa frase. A primeira vez que ele me disse isso estávamos deitados no chão do apartamento alugado dele. Ele estava voltando para Londres, depois de ter passado seis meses e quatro dias aqui. Nós nos conhecemos na terceira semana dele na cidade, em um bar esquisito perto do rio. Eu tinha quinze anos, então quando ele me ofereceu um cigarro, eu aceitei, mas não fumei. Fiquei apenas com o cigarro entre os dedos. Nós não nos beijamos naquela noite, ou em algumas outras depois daquela. Nossos lábios se encontraram após a quinta vez que nos vimos. Ele era o segundo cara que eu beijara. Eu era a segunda brasileira que ele beijara. Nós rimos disso após algum tempo.

Acho que nunca havia me tocado, de verdade, no fato de estar apaixonada por ele. Só na ultima noite chorei, encolhida nos seus braços. Ele me olhou com um sorriso bobo, disse que voltaria e me pediu – não se esquece de mim. Eu olhei para ele e o beijei na bochecha. É lógico que não esqueço – deixei esse pensamento para mim. Apesar de termos dormido juntos diversas vezes nunca chegamos a fazer nada demais, me arrependi disso no instante que o vi pegando o avião. Passamos alguns meses nos comunicando através da internet e até alguns telefonemas rápidos. Após um ano quase não nos falávamos mais. Eu arrumei um namorado, ele estava com vinte anos e quase terminando seu curso na Inglaterra.

Era uma noite quente quando recebi sua ligação. Lembro que era quente porque havia um ventilador na minha frente e o seu barulho me impediu de reconhecer sua voz, com aquele sotaque e nostalgia. Apenas quando desliguei o ventilador reconheci – o calor que se dane, pensei, vale a pena. Com vinte e três anos ele veio ao Brasil resolver negócios da sua recente empresa, me ligou e perguntou apenas – você ainda bebe cerveja? Eu respondi que sim, ele chegou à minha cidade um dia depois, eu o peguei no aeroporto e lá fora fumamos juntos. Ele se espantou a me ver fumando, mas disse ser lindo. Eu olhei para ele, apaguei o cigarro e disse – eu não me esqueci de você. Nós nos beijamos ali.

Ele passou apenas três noites em Recife. O suficiente para que fizéssemos tudo que não havíamos feito quatro anos atrás. Em meu peito algo me dizia – não se apaixone por ele novamente. Mas eu sabia, eu nunca o havia esquecido, nunca havia deixado de estar apaixonada. Passamos dez anos sem no ver, no falamos apenas o suficiente para que o sotaque britânico dele não se perdesse nas minhas lembranças. Quando soube que ele iria se casar, senti ânsia de vômito. Ele me convidou ao casamento, mas não fui. Não gostaria de substituir a lembrança dele deitado em um apartamento vazio, com a camisa de Sex Pistols e um cigarro nas mãos, por uma imagem, até mesmo cômica, dele entrando na igreja, de smoking e gravata borboleta. Ele se casou aos vinte e sete anos. Aos trinta e um estava divorciado, me mandou um email contando.

Dois anos depois nos encontramos em São Paulo. Passamos um fim de semana juntos, quando me deixou no aeroporto para voltar à minha cidade natal, ele me disse – nunca me esqueci de você. Chamei-o para voltar a minha cidade comigo. Moramos juntos por sessenta anos. Hoje, estou aqui ao seu lado, vestida de preto e sem chorar. Fumo meu ultimo cigarro, segurando em suas mãos geladas e mortas. Não consigo pensar em mais nada a não ser: "não se esqueça de mim". Em breve vão ser minhas mãos que estarão frias, meu último suspiro vai ser em forma de um sorriso debochado – me lembrei de você por mais tempo.

domingo, 18 de outubro de 2009

Santa heresia

Estava andando no meio da rua, quando parou em frente a uma igreja. Faz tempo que não parava aqui – pensou. Seus olhos envergonhados assistiam aquela exuberância de vidros e concretos. Aos seus olhos, juntaram-se seus pés, hesitantes, descalços e sujos. Você não pertence a esse lugar – lembra de ter ouvido aquilo no seu intimo. Mas ora, não é essa a casa de Deus? E não é Deus o pai de todos? Entrou vagarosamente, andando impotente por um corredor extenso. Ao lado, distante, viu um padre olhando-lhe com sintomas de desprezo. No altar, acima de todas as outras estatuas, jazia a estatua de Jesus. Uma barba igual a minha – percebeu – porém penteada. Jesus é branco. Jesus tem olhos verdes. Eu não sou negro não, só tenho essa pele descascada, ressecada pelo sol escaldante. Sentiu-se constrangido, muito embora não houvesse nenhuma outra presença ali, além da dele e do padre, suas roupas gastas, furadas e acinzentadas não faziam parte da paisagem. Em frente aos seus olhos havia o cheiro da riqueza. Por isso passava muito tempo sem entrar em uma igreja, a sensação de deslocamento já basta nas ruas, com os vidros abaixados, com o olhar de medo. É verdade, não podia negar que essa é uma atitude justificável, havia muitos como ele, alguns realmente esperam que você não feche a janela por outro motivo.

Olhando ao redor, percebeu que a sombra do padre não estava mais ali – seis horas da noite, ele deve ter ido jantar. Aos poucos foi vendo as pessoas entrando na igreja, seis horas da tarde, vai haver missa. Eu poderia ficar aqui – pensou – assistir a missa, sentado em um desses bancos marrons e com cheiro de lustrador de móveis, eu poderia pertencer a esse lugar. Contudo não suportaria os olhares. Esses, que estão acontecendo, olhares que indagam – será que a missa vai começar com isso aqui dentro?

É. Ele não queria pertencer àquele lugar.

Ao sair da Igreja olhou para trás e pensou – eu não pertenço a esse lugar. No seu bolso havia dinheiro roubado da caixa perto do altar – se deus estiver mesmo entre nós ele seria o primeiro a dizer amém.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Amor efêmero

Quero você e sua calça de linho.
Seu cigarro entre os dedos,
Seu gole de vinho.
Quero seu corpo sedento,
Beijando-me o corpo todinho.
Me quero entre seus dentes.

Te quero sozinho.
Entre as quatro paredes do mundo,
Pela eternidade de alguns segundos.
E quando houver inverno entre nós,
Sempre haverá outra estação
Em outro lugar do planeta.

Amanha você pode me procurar,
Mas se eu não atender,
Não insista.
Eu quero você agora,
Nesse momento perfeito, nós dois
Com as cabeças para fora da janela.

Nossos olhares se cruzam,
Eu quero você agora,
Eu te amo agora,
Amanha esqueço seu nome
E no telefone,
Sua voz não me provoca mais arrepio.

sábado, 10 de outubro de 2009

Um samba para nós dois

Se eu fizer um samba para nós dois,
Você vem fazer amor comigo?
Talvez não haja motivo de raiva,
Mas entendo a necessidade de querer ouvir
Um samba que fale sobre nós dois.

Se eu fizer um samba para nós dois,
Ainda que sem rima ou ritmo,
Só palavras de amor rabiscadas
Como se fosse um livro de um autor
Contemporâneo,

Você viria dormir abraçada comigo?
Se eu fizer um samba sem jeito,
Do fundo do peito
Com gosto de cerveja e cigarro
Você volta para mim?

Ainda que haja motivo para raiva,
Entendo sua necessidade de ir dormir,
Contudo, compreenda meu amor
Sua dor de cabeça não pode ser maior
Do que a vontade que insisto em sentir.

Se você preferir com rima,
Eu faço do jeito que você quiser,
Ponho os seus preceitos acima
Dos conceitos que eu tiver.
Tudo depende, minha querida,

Do samba que eu fizer para nós dois.
Muito embora eu não seja Cartola,
Nem faça samba como o meu guri,
Ainda assim tento te trazer de volta
Com esse samba mal feito e ruim.